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Registros de agressão contra mulheres crescem 29% em dias de jogo de futebol

Saiu no site O GLOBO

Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública vê agravamento da ligação entre comportamento agressivo de torcedores e violência de gênero

Uma pesquisa que comparou registros de violência contra mulheres com o calendário do futebol no Brasil concluiu que os casos de agressão contra mulher sobem 28,8% em dias de jogos.

O trabalho, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), partiu de dados colhidos em cinco capitais do Brasil, cruzados com a agenda dos três torneios que mais mobilizam times em escala nacional.

 

 

O estudo, patrocinado pela rede de verejo Magalu e promovido pelo Grupo Mulheres do Brasil, mostra como o fenômeno da violência no esporte tem uma relação próxima com o da violência de gênero. Além dos casos de agressão, os registros de ameaça também sobem, em 27,4%, nos dias em que são realizadas as partidas.

“Enquanto o futebol se consolidou como expressão máxima da identidade nacional, permeando todas as camadas sociais, centenas de milhares de mulheres brasileiras enfrentam violência doméstica todos os anos, e existe uma conexão entre esses dois fenômenos que permanecia invisível na literatura acadêmica brasileira”, escrevem os pesquisadores.

 

 

Os dados colhidos para o trabalho cobrem São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Salvador (BA) e Porto Alegre (PA), e foram obtidos por Lei de Acesso à Informação com secretarias de segurança para o período de 2023 a 2025.

O cruzamento de informações foi feito com datas de partidas do Campeonato Brasileiro, da Libertadores da América e da Copa Sulamericana, em que figuram participações os clubes com maiores torcida em cada uma das cidades incluídas.

— Esse é um tipo de violência que tem se recrudescido e tem alcançado as mulheres jovens, especialmente, e num lugar especial: dentro de casa — diz Juliana Brandão, do FBSP, uma das autoras do trabalho divulgado hoje. Mais de um terço dos registros de lesão corporal estudados, segundo a pesquisa, foi dentro das residências das vítimas.

Essa foi a segunda vez que o centro de pesquisa coletou dados sobre esse fenômeno, e os resultados mostram que o problema cresceu em relação ao período 2015 a 2018 quando os casos de ameaças e agressão contra mulher em dias de partidas cresciam 23,7% e 20,8%, respectivamente.

 

‘Reflexo da sociedade’

 

A apresentação dos dados, num evento em São Paulo, teve presença de Luiza Trajano, presidente do grupo Magalu, e de Raí, ex-jogador de futebol, recrutado para ajudar a divulgar os dados.

— O futebol é o reflexo da sociedade. Quando a gente vê racismo e quando a gente vê a violência, e no caso do gênero, esse é um reflexo piorado — afirmou o atleta. — E isso é só um aspecto da questão, sem falar na dificuldade enfrentada pelas meninas que querem jogar futebol e da violência nos estádios, que é um espaço hostil para as mulheres.

A pesquisa divulgada hoje também incluiu alguns recortes no levantamento, para tentar identificar os grupos mais vulneráveis ao problema observado.

Uma dos desequilíbrios identificados foi para mulheres mais jovens, entre 15 e 29 anos de idade. Estas eram mais vulneráveis a esse aumento do registro de casos de agressão ou ameaça, afirmam os pesquisadores.

Uma outra diferença de impacto identificada foi uma assimetria racial nos dados. De modo contraintuitivo, o salto das estatísticas de agressão em dias de jogo atingiu mais as mulheres brancas (30,9%) do que as mulheres negras (23,2%).

— Nós ficamos pensando em o que pode estar acontecendo, porque em outras pesquisas sobre violência, em todas as modalidades que estudamos, as negras sofrem mais que as brancas — diz Brandão. — Uma coisa que nos perguntamos é: a mulher negra está em casa quando o jogo está rolando? Talvez não. A gente supõe que a realidade é diferente nesse recorte racial.

Um sinal de que isso pode explicar a disparidade é que a dinâmica de violência é diferente em dias úteis, quando comparados aos dos finais de semana. Nos sábados e domingos, a taxa absoluta de agressões e ameaças é bem maior.

Daniel Cerqueira, pesquisador do FBSP e coautor do estudo, afirma também que, talvez, os casos de violência contra negras sejam menos propensos a serem notificados por essa mulheres estarem submetidas a uma pressão maior para que deixem de fazer a denúncia.

Segundo o cientista, de todo modo, os dados do trabalho foram corrigidos para outros fenômenos externos que influenciam casos de agressão, como o clima e a condição socioeconômica.

— A diferença estatística que estamos mostrando é altamente significante — afirma. — Isso não é uma coincidência, é algo que acontece.

 

Combate ao problema

 

Junto com a pesquisa, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou uma série de recomendações para o poder público, a sociedade civil e o setor de esportes ajudarem a combater o problema.

Entre as medidas propostas, estão a criação de postos de denúncia dentro de estádios e campanhas de educação sobre masculinidade tóxica, com iniciativas voltadas ao desenvolvimento socio-emocional de jovens torcedores.

Outras sugestões do grupo são as de atuação por meio de punições exemplares, com banimento de atletas envolvidos em casos de agressão contra mulher e afastamento de membros de torcidas condenados por violência doméstica.

Uma proposta direta dos autores, além disso, é a de desestimular o consumo de bebida alcoólica em estádios e ambientes de torcida onde a violência pode ocorrer, além da prática de apostar em bets, que amplifica os casos de frustração associados também a comportamento violento.

 

Placar inesperado

 

Segundo os autores do estudo, o trabalho não abordou de maneira estatística, ainda, a questão da motivação dos agressores por trás dos casos de violência reportados. É possível estudar o fenômeno, porém, a partir de observações culturais.

“A cultura futebolística, marcada por narrativas de rivalidade, virilidade, dominação e competição, tende a reafirmar estruturas de poder masculino, sendo frequentemente atravessada por fatores que potencializam a ocorrência de violências”, escrevem Brandão e seus coautores. “O futebol não causa a violência doméstica. Mas deixa a mostra as dinâmicas violentas de quem já vive nela.”

Os pesquisadores afirmam que o ambiente do esporte, incluindo a frustração com resultados negativos inesperados, “prorroga a normalização” da agressividade masculina. “Isso faz com que, em dia de jogo, dentro de casa, se vivencie um terceiro tempo – o da violência contra as mulheres, que transborda para o espaço doméstico.”

Depois do apito final

Segundo Brandão, um problema no combate a essas agressões de gênero ligadas ao ambiente de torcida é que muitos homens já normalizaram essa atitude a consideram perdoável.

— No ambiente do futebol exite a naturalização de uma masculinidade que opera pela violência. Pelo lugar que esse homem ocupa, essa violência é um quase um salvo-conduto para el agir da forma que ele tem a imaginar — diz a pesquisadora. — Ele tem salvo-conduto para subjugar a mulher e impor o seu ponto de vista, ameaçar, bater, agredir, sem que isso tenha qualquer consequência jurídica.

A cientista do FBSP afirma que, segundo os dados, é preciso incorporar o ambiente do futebol nos programas de estudo e combate à violência contra a mulher.

— Quando a gente olha para o que o campo traz, depois que o apito final rola, atrás da porta, essa mulher suporta a proliferação de uma masculinidade que não dá espaço para uma relação saudável, em que o convívio é mediado pelo diálogo — diz. — A gente está falando de convívios que estão sendo mediados pela violência.

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