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Marcela Ceribelli: ‘Se você acredita que uma mulher deve permanecer viva, você é feminista’

Saiu no site AMADOMUNDO

Em entrevista ao Papo Amado, jornalista fala sobre a plataforma Obvious e defende a inclusão dos homens no debate sobre violência de gênero

A ideia de que basta ensinar mulheres a se protegerem já não dá conta da violência de gênero. Na verdade, nunca deu. Para a jornalista Marcela Ceribelli, é nesse ponto que a conversa precisa mudar de eixo e passar a incluir os homens, sobretudo na forma como são educados e socializados. Sem diálogo, explicou em entrevista ao Papo Amado, do canal Amado Mundo, o acolhimento pode aparecer em outros lugares.

“A partir do momento em que o discurso é ‘cala a boca, macho’, mais os red pills dizem: ‘vem, aqui tem amparo’”, avaliou, ao comentar a atração exercida por movimentos que oferecem pertencimento e são ancorados no chamado masculinismo.

Fundadora da Obvious, criada em 2015 e hoje estruturada como uma plataforma de conteúdo voltada para a chamada “felicidade feminina”, Marcela também falou sobre o lugar que ocupa ao conduzir essas conversas. Disse que, ao se sentar na cadeira do podcast “Bom dia, Obvious”, assume a função de “porta-voz” das mulheres que a acompanham, um exercício constante entre o que deve ser perguntado e para onde a conversa precisa ir. “É leve e, às vezes, é pesado, mas com muita responsabilidade”, afirmou.

O projeto, que começou no Instagram (@obvious.cc), hoje se desdobra em diferentes frentes e reúne mais de 2 milhões de pessoas nas redes.

Na conversa, Ceribelli refletiu ainda sobre o esvaziamento de termos como “sororidade”, “empoderamento” e “autocuidado”, que, segundo ela, perdem sentido à medida que são absorvidos pela lógica do consumo. Autora de “Sintomas – e o que mais aprendi quando o amor me decepcionou” e de “Aurora: o despertar da mulher exausta”, livro finalista do Prêmio Jabuti, a jornalista ainda apontou para a captura do conceito de feminismo por setores da direita, o que estaria contribuindo para um imaginário equivocado sobre o tema.

“Acredito que as mulheres devem permanecer vivas. Se você acredita que uma mulher deve permanecer viva […], você é feminista”, declarou.

A seguir, leia os principais trechos da entrevista. Ou assista à íntegra em vídeo no final do texto.

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As mulheres que você traz com você são pesadas ou te deixam leve no dia a dia?
Encontro equilíbrio. Quando sento na cadeira do “Bom dia, Obvious”, chego ali para ser a porta-voz dessas mulheres que me acompanham, e é um exercício de ‘o que’ elas querem que eu pergunte e ‘para onde’ elas querem que o episódio vá. Tem um inconsciente ali tentando investigar. É leve e, às vezes, é pesado, muita responsabilidade.

Como surgiu a ideia de criar o “Bom dia, Obvious”?
Sempre fui apaixonada pelo formato áudio. No meu primeiro emprego, morava em Copacabana e ia para Niterói todos os dias ouvindo rádio. Adoro a companhia e intimidade que a voz traz para a gente. Em 2019, pensei: por que não tentar? O mundo dos podcasts era muito menor do que agora. Só tinha homens. A referência era homens sentados em uma mesa discutindo futebol, mundo nerd… Quis trazer esse universo da Obvious, que existia desde 2015, para entrevistas que não fazia ideia de onde iam dar. Acho que tudo na minha carreira foi um pouco disso.

Quais são suas referências como escritora?
Eternamente, uma paixão nada simples por Annie Ernaux, por uma generosidade de cortar o coração, de narrar com tanta precisão aquilo que ela vive e viveu. Joan Didion também; brinco que, às vezes, estou distraída e a “vida muda num instante”, aquele início de “O ano do pensamento mágico”, um trecho que fica em você. [Também] Carmen Maria Machado e Rosa Montero. No Brasil, a Giovana Madalosso é uma gênia e a cena final de “Suíte Tóquio”… Como pode, no meio de tanta coisa que a gente consome, essas autoras terem essa habilidade de guardar algo delas na gente.

Você sente que no “Bom dia, Obvious há uma responsabilidade de falar por mulheres que não tem um microfone e essa audiência enorme?
Sem dúvidas. Ter aquele espaço é também uma maneira de multiplicar esse alcance. Tenho muito tesão em ver o efeito do programa na vida das pessoas que passam ali. E agora posso falar ‘pessoas’ porque tenho entrevistado alguns homens, e não à toa, um dos papéis é trazê-los para dentro da conversa. Sempre peço para me contarem como reverberou, porque quero que seja um trampolim para elas.

Tem histórias aos montes, né?
Tem. Uma das mais bonitas é a da Lorena Portela, que venceu o Jabuti. Fui eu que contei que ela havia sido indicada. Ela não tinha visto a lista ainda quando mandei a mensagem. Na época da entrevista, a Lorena tinha publicado de forma independente o livro “Primeiro eu tive que morrer”, ela foi para o top 10 da Amazon e foi muito lindo.

Isso é sororidade na veia. Hoje, quanto do que vemos são mulheres realmente conseguindo progredir coletivamente? E quanto, na prática, há um pouco de marketing em torno disso?
A sororidade é muito mal interpretada, porque entende-se que você vai respeitar, admirar e priorizar a mulher independente do que ela faça. Não é isso. Você não vai ser amiga e não vai amar todo mundo. E é muito perigoso quando essas palavras se popularizam – sororidade, empoderamento, autocuidado – [porque] se esvaziam de significado muito rápido.

O mercado de consumo é, em grande parte, baseado em mulheres, isso desde os anos 50. Ele foi feito para convencer mulheres a comprar. Toda vez que algum conceito que teoricamente veio para libertar as mulheres se populariza, a ordem mercadológica e patriarcal vai fazer com que estejam em produtos. Por isso a ideia de que se tornou marketing.

É perigoso porque tudo aquilo que fica cansativo traz uma tendência de contracultura. As gerações mais novas não cresceram vendo a rivalidade feminina em todos os conteúdos que foram feitos para nós. Como já crescem em um mundo que fica batendo na tecla da sororidade, dá vontade de ser do contra.

Quem são seus pais?
Meu pai era estudante de medicina e a minha mãe, de jornalismo. Em Campinas, eles se trombaram no campus e começaram a namorar. Meu pai é médico, mas também professor, então sempre houve essa paixão pela leitura dentro de casa. Tanto que a minha mãe sempre fala: “Adoro que as pessoas acham que, porque você é minha filha, fui eu que te estimulei a ler, sendo que você sempre leu mais por causa do seu pai.”  Havia muito trabalho, mas também o suporte enorme da minha avó. Era uma casa de muita intelectualidade, nesse sentido de tesão e curiosidade.

E quem era a sua avó?
Odete Maria Galo Ceribelli. Ela teve três filhas mulheres em São José do Rio Preto. Ela era professora e diretora de escola – a educação sempre voltando. Desde o primeiro dia da vida adulta [das filhas], falou: “independência financeira, porque vocês vão sair de relacionamentos na hora que vocês quiserem, trabalhem e estudem”. A minha avó é uma mulher que soube muito antes da época e tentou passar para quem poderia viver aquilo que ela também não teve muita escolha.

Você já disse em mais de uma ocasião que a sua avó é uma das responsáveis por você ter sido criada como uma feminista sem saber. Essa é uma realidade de muitas mulheres brasileiras. Muitas até que se dizem de direita e votaram no Bolsonaro, e quando se vai ver a rotina, é um corre totalmente feminista. Você percebe na sua audiência perfis como esse?
Tem de tudo. O feminismo virou um termo que a direita capturou, assim como o conceito de ‘família’. Tenho uma raiva, porque falo que sou muito família, e aí parece que, na verdade, estou falando de bons costumes – coisa que não tem nada a ver com a outra. O feminismo ficou com um imagético muito errado. Existem muitos feminismos. [O conceito] para mim é: acredito que as mulheres devem permanecer vivas. Se você acredita que uma mulher deve permanecer viva, independente dela ter saído de uma relação, traído um parceiro e que tem direito a chegar no trabalho e não se sentir violentada de diferentes maneiras até chegar ali, você é feminista.

É uma eterna logística ser mulher, uma carga mental difícil de explicar. É prever que roupa usar – aquela com a qual você tem menos chance de ser assediada, mas ainda assim performar uma feminilidade que é exigida de você. A gente vai subestimando o quanto essa logística para se sentir segura ocupa o nosso espaço mental, quando poderíamos, por exemplo, estar estudando, pensando… Tenho certeza de que estaríamos fazendo o que muitos homens estão fazendo.

Você evita usar a palavra patriarcado e terminologias que foram sequestradas um pouco pela política e que também não são facilmente compreensíveis. 
Evito essas palavras porque tento falar da maneira mais democrática que consigo. Tenho um cuidado muito grande com os meus convidados. Se falam algum termo, peço para explicar. Se eu começar a falar termos muito do momento, [o público] vai se perder e vai parecer que é um discurso pronto. Claro que em alguns momentos vou usar porque é inevitável e depende para quem estou falando.

Outra coisa que você já falou algumas vezes é sobre a romantização imposta às meninas sobre a ideia de um amor romântico. Quando menina, você sonhou com isso?
Sonhei, e me foi dado. Se eu dissesse “quero assistir a um filme sem príncipe”, nem existia. Até em Rei Leão, o Simba é um príncipe, e ele e a Nala vivem um amor. Sou extremamente romântica; amo me apaixonar e estar apaixonada. Não tenho críticas ao amor como sentimento. É delicioso. Existem outras formas de paixão e vivências que acabam nos levando a afunilar tudo, como se o amor romântico fosse o fim, quando, na verdade, é apenas uma das maneiras de viver grandes histórias.

Um dos temas que é a espinha dorsal do seu trabalho é o prazer das mulheres. Como foi começar a falar sobre isso?
A coisa mais fácil do mundo. Sexo é esporte. É muito divertido e prazeroso. [Mas], o tornaram um inferno para as mulheres e para os homens que são educados por filmes pornôs. Falar de prazer feminino em um lugar naturalizado passa pela história da minha família. Eu tinha 12 anos quando a minha mãe [Renata Ceribelli] tinha um quadro na TV aberta chamado “Elas só pensam nisso”. Sempre foi muito natural na minha casa.

Você vem ganhando audiência masculina também. Percentualmente, tem ideia de quanto é masculino e quanto é feminino?
O podcast começou com 6% de homens. Hoje são 12%, dobrou. Os homens precisam de acolhimento, assim como qualquer outro ser humano. Vão falar: “mas Marcela, os homens estão matando as mulheres”. Eu sei, e esses homens têm que ser presos. Estamos na mesma página. Porém, os homens não assassinos, os que ainda não foram violentos, precisam se sentir amparados. A partir do momento em que o discurso é “fez merda porque é homem”,  “cala a boca macho”, mais os Red Pills falam: “vem, aqui tem amparo, é tudo nosso. Está magoado com essa mulher? Você tem razão e deveria matar ela.” Esse é o discurso chegando. Tem um lugar pronto para receber esses homens. Deu errado a ideia do “sai”. Quando falo que quero que um homem escute, estou protegendo as mulheres desse homem.

Você tem uma frase que resume bem o raciocínio, que é “nós precisamos deles, não tem jeito. É muito importante termos esses aliados”, referindo-se aos homens. 
O ímpeto da educação tem que partir do homem. Quando digo que não tem jeito, que vamos precisar deles, é porque também é exaustivo ensinar só as mulheres a se defenderem. Quando é que a gente educa os meninos a não atacarem? Tem uma geração de mães educando meninas a se defenderem, a como se portar na rua, a estar em relacionamentos… E os moleques estão aprendendo o quê? Falo em precisar porque são eles que vão ter que aprender a não violentar, a não agredir, a não atacar e a respeitar.

Se você tivesse super poderes para mudar a vida das mulheres, quais seriam?
O primeiro poder seria educar os homens. O problema das mulheres se resolve educando os homens para que eles entendam e reconheçam as mulheres como pessoas, sujeitos, com seus limites claros de espaço, emocionais e de respeito máximo. Mudaria muitas leis. Aborto legal e seguro, porque as mulheres estão abortando de qualquer maneira. A diferença é a condição financeira que têm para fazer isso. As ricas saem vivas e prontas para a próxima, enquanto as pobres muitas vezes não. Deixaria a cidade melhor para as mães. Todos os lugares deveriam ter espaços em que as mulheres pudessem amamentar esses futuros cidadãos – é o que as pessoas esquecem, esse neném um dia vai ser um cidadão. Acabar com a violência contra a mulher, defender a vida e as mães. Só quero que as mulheres permaneçam vivas.

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