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Thais Cremasco diz que legislação brasileira é avançada, mas chama a atenção para uma cultura que ainda subjuga o sexo feminino
A Central de Atendimento à Mulher reuniu os dados de um balanço realizado em 2025 pelo canal de atendimento do governo federal Ligue 180. Os resultados mostram que, por dia, 425 novos casos de agressão contra mulheres são registrados no Brasil e que mais de 7.000 denúncias de violência vicária, que é quando o agressor ataca filhos ou parentes para atingir a mulher, foram realizadas no mesmo ano.
Os resultados são preocupantes e fazem a coordenadora do núcleo de violência contra a mulher da OAB de São Paulo, Thais Cremasco, chegar à conclusão de que, apesar dos avanços conquistados por meio da Lei Maria da Penha, dificuldades ainda são enfrentadas. “Não adianta ter uma lei se não existe aplicação efetiva da lei.
Ela notou, no Hora News desta quinta-feira (16), o fortalecimento da medida, que agora passa a reconhecer outros tipos de violência, como a psicológica e patrimonial; porém, ela destacou que muitas autoridades não se sentem obrigadas a verificar tais casos. Por outro lado, ainda existem mulheres que não denunciam os abusos.
“A violência contra a mulher se perpetua muitas vezes por meio de microagressões. […] Ainda assim, quando ela reconhece essas violências, sente vergonha porque entende que, de alguma forma, ela tem responsabilidade em ter deixado acontecer. A gente ainda vive numa cultura que acredita que cabe à própria mulher se defender daquelas violências”, aponta Thais.
A coordenadora elaborou a própria tese e afirmou que a sociedade brasileira normaliza a violência contra a mulher: “Temos uma cultura que desrespeita e que violenta a mulher reiteradamente. […] Nós vamos precisar de uma lei que criminalize o discurso do ódio para que a nossa sociedade perceba o quão violenta e desrespeitosa ela é”.
‘Uma tecnologia do machismo’
Por isso a especialista colocou um holofote no movimento red pill, que tem conquistado muitos jovens por meio das redes sociais e proliferado mensagens de ódio e desrespeito à vida das mulheres: “Eu costumo dizer que a violência contra a mulher é uma tecnologia do machismo. Ela se reinventa […] 30% dos adolescentes, por exemplo, entendem que mulheres devem ser submissas aos homens. Veja bem, adolescentes!”.
Para Thais, a discussão do tema é importante para prevenir a continuidade do cenário e fazer com que a sociedade reconheça os próprios erros. “Às vezes, falar sobre ódio pode parecer muito radical, né? Todo mundo pensa: ‘Eu não odeio mulher, tenho mãe, irmã’; mas e todas as outras mulheres? […]
Historicamente, as próprias legislações brasileiras reproduziram violência contra a mulher”.
No fim da conversa, a coordenadora alerta que, ao aturar condições abusivas por conta de suporte financeiro, as mulheres não são sustentadas, mas sim sustentam um sistema perigoso que pode ter uma conclusão terrível. “Com certeza você já ouviu falar ‘ele é um bom pai’ ou ‘ele é um bom vizinho’. […] Ele fala que vai mudar […] então vou dar uma chance. […] Muitas vezes o próximo nível é a morte daquela mulher”.








