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“O #metoo trouxe a ampliação da noção de violência de gênero”

Saiu no site ÉPOCA

 

Veja publicação original:  “O #metoo trouxe a ampliação da noção de violência de gênero”

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Especialista em mobilização feminista nas redes sociais explica a estratégia para mudar comportamentos machistas

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Por Carolina Branco Ferreira em depoimento a Elisa Martins

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O #metoo começou nos Estados Unidos a partir de depoimentos de mulheres de repercussão nacional e internacional, principalmente artistas e famosas, com o tema dos abusos no cinema. O caso mais famoso é o da cena de sexo anal em Último tango em Paris, filme da década de 70, que mais tarde se admitiu como estupro. Então, várias atrizes vieram a público dizer como atitudes desse tipo eram comuns. O #metoo fez parte de um processo de começar a reconhecer a violência de gênero no cotidiano e em lugares que jamais imaginávamos que existisse. Estamos acostumados a pensar a violência de gênero como violência de casal, caso de polícia, Lei Maria da Penha. O #metoo trouxe a ampliação da noção de violência de gênero, fruto da reflexão e da atuação de vários grupos feministas. Temas como mulheres que ganham menos que homens exercendo a mesma função, o assédio no local de trabalho, na rua, a chantagem, a violência obstétrica, o estupro.

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No Brasil, o #metoo chegou na sintonia dessa violência sobre a qual todas têm alguma história para contar. Criou uma identificação de mulheres compartilhando experiências parecidas. Mas é importante dizer que no Brasil já estavam acontecendo outras hashtags. A ideia de que foi algo que veio de fora não nos ajuda. Desde 2016, surgiram aqui hashtags como #meuamigosecreto e #primeiroassedio. Entre os grupos feministas, há discordâncias. E, nesse ambiente, o #metoo ajudou a criar concordâncias. Houve uma apropriação estratégica do #metoo no Brasil. O objetivo de todas essas hashtags não é punir ninguém. É tornar público um tema, suscitar um debate geral, fazer as pessoas se reconhecer naqueles relatos, sensibilizar e provocar uma mudança de atitude para as mulheres não se prestarem mais a determinadas coisas. É mais pedagógico que punitivo.

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Vivenciar esses movimentos e as redes feministas me chamou a atenção para o protagonismo feminista na internet. Para a expansão desse ideário. Escrevi uma vez um artigo, mais lido até que minha tese, sobre os chamados feminismos web. Mostrei como várias páginas e blogs de mulheres se relacionavam. O mais curioso é que eram sempre narrativas em primeira pessoa de mulheres jovens. Muitas se descobrindo feministas. Deveríamos pensar um sujeito no sentido mais sociológico do termo, produzido a partir das práticas da internet. Existe uma desigualdade no mundo high-tech, onde ouvimos falar muito mais de homens da tecnologia, como Steve Jobs, do que de mulheres. Por outro lado, temos muitos usos sociotechs da tecnologia. E eles estão sendo muito bem aproveitados por esses movimentos de mulheres.

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Não é de hoje que não podemos pensar mais em uma divisão entre on e off-line. Se algo está acontecendo na internet em termos de movimentação política, é porque está conectado a um espaço analógico, off-line, dos movimentos. Vemos isso o tempo todo, e com as mulheres não tem sido diferente. Em 2015, tivemos a primavera feminista contra o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha — o #foracunha, por causa da tentativa de restringir o direito ao aborto previsto em lei. Aquela quantidade de mulheres e o chamado para a rua estão completamente ligados a uma forma de se organizar na internet. Existe esse trânsito entre on e off-line. E são pessoas comuns, ao mesmo tempo produzindo e consumindo conteúdo — a ideia de “prosumer”. Todas essas manifestações políticas foram feitas a partir desse sujeito que se produz na internet.

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É interessante também que essa explosão na rede e nas ruas tenha partido de retrocessos legislativos em relação aos direitos das mulheres. O perigo real de retirada de direitos mínimos, sexuais e reprodutivos das mulheres duplicou a ativação de sensibilidade que as hashtags já estavam trazendo na internet. Foi a faísca para essas hashtags. Uma propulsão que foi imediatamente vista nas ruas. Tanto na época do #foracunha como mais recentemente, com o #elenão. São movimentos que têm a ver com como um homem se pronuncia em relação às mulheres. E não há retorno. Essa mudança já está configurada.

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De certa forma, pensando no contexto brasileiro, o #elenão foi até mais forte do que o #metoo, em termos de resposta a Jair Bolsonaro. Nasceu como movimento brasileiro, com um caráter e um objetivo. Não houve um tipo de #elenão para Trump, marcado por gênero, por um protesto contra a misoginia nos Estados Unidos. E a hashtag também circulou o mundo.

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As possibilidades de recriar essas estratégias são infinitas. Se acontecer novamente um cenário de ameaça aos direitos das mulheres, certamente surgirá outra hashtag. O que agora talvez venhamos a ver são grupos de mulheres que jamais imaginamos que viriam a público colocando suas pautas e se aproximando com noções feministas contra a misoginia. Não só de Bolsonaro. É bom ficar de olho nas mulheres ligadas a religiões, em especial a evangélica. Haverá grupos de discordância, e a internet é sempre um bom lugar para falar e se fazer ouvir.

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Carolina Branco Ferreira é antropóloga e estuda o feminismo nas redes sociais

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Transcrição A bióloga e advogada Bertha Lutz nasceu em 1894, filha da enfermeira Amy Fowler e do cientista Adolfo Lutz. Fez parte de seus estudos na Universidade de Sorbonne, em Paris e depois de formada atuou na área de botânica do Museu Nacional até 1964. Sempre participou em causas sociais envolvendo direitos das mulheres, sendo presidente da Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Em sua homenagem, todos os anos o Senado entrega o Diploma Berta Lutz a personalidades que se destacam na defesa de direitos das mulheres e das questões de gênero. Em 2003, na primeira edição do prêmio, a então senadora Emília Fernandes, do Rio Grande do Sul, ressaltou o pioneirismo de Bertha em diversas áreas. Emília Fernandes – A mulher cidadã Bertha Lutz, advogada e bióloga que se diplomou em tempo no qual a mulher não tinha outra opção além de tornar-se dona de casa e gerar numerosa prole. Foi uma mulher muito à frente de seu tempo, um tempo de nefasta opressão que, além de negar acesso às instâncias formais de poder, reprimia de maneira terrível todas aquelas mulheres que tentassem romper as barreiras impostas por uma sociedade marcada por valores machistas. Bertha Lutz fez parte do grupo conhecido como sufragistas brasileiras que teve como conquista o voto feminino no país em 1932. Foi a segunda mulher a ser deputada federal no Brasil em 1936. Bertha ainda fez parte da delegação brasileira em 1945 que participou da construção da Carta das Nações Unidas. Ela faleceu em 16 de setembro de 1976.

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