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História de violência doméstica de Cristiane Machado não pode morrer

Saiu no site REVISTA MARIE CLAIRE

 

Veja publicação original:  História de violência doméstica de Cristiane Machado não pode morrer

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Em sua nova coluna, Debora Diniz comenta o depoimento da atriz sobre seu turbulento casamento com Sérgio Schiller Thompson-Flores

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Por Débora Diniz

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Se serve a confissão, não sabia que Cristiane Machado era atriz global. Seu rosto foi a inspiração de Vik Muniz em uma escultura para a abertura da novela Passione, em 2010. Mas mesmo que soubesse que era uma atriz, jamais me confundiria nas imagens que assisti como minutos de horrores no programa “Fantástico”, da TV Globo, deste domingo. Eram cenas em que Cristiane apanhava, era enforcada, surrada, amarrada com um fio de telefone, escorraçada com um cinturão. A imagem do cinturão me fez lembrar a fúria dos patriarcas do passado com os escravos ou as crianças: Sérgio Schiller Thompson-Flores, o príncipe do conto de fadas, sem afastar os olhos da vítima, retira o cinto de uma calça e o enrola entre os dedos como se fosse um cangaceiro impiedoso.

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Como outras mulheres, Cristiane passou a filmar as torturas domésticas para provar que era vítima de violência. Instalou câmeras escondidas no quarto, depois esperou. Enquanto assistia as cenas de tortura não pensei em nada além do que o medo que essa mulher sentia. Tive algum alívio, é verdade. Eu sabia que ela estava viva, pois era quem narrava sua própria história como de outra vítima. Passei a imaginar como foram os dias em que planejou as câmeras e esperou a surra. Quantos dias esperou? Será que dormiu? Com quem será que compartilhou seu plano, o que disse a quem instalou as câmeras em seu quarto? A surra chegou, e foi mais de uma vez. Ela foi à polícia, ele foi proibido de se aproximar dela. Chegou a ser preso. Como outras histórias de desamor, os dois retornaram, houve pedidos de desculpas.

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Assistimos como em um conto de fadas sem final feliz o casamento da princesa, o noivo emocionado a esperando no altar. A extensão do véu que cobria a nave da igreja era do tamanho do segredo que já guardava no dia do casamento – Cristiane já sofria violência antes mesmo de casar-se. O “Fantástico”, antecipando a pergunta dos indiscretos, a questionou como pôde ter se casado com alguém que a espancava. A resposta foi tão banal quanto é a verdade da intimidade: porque os convites já haviam sido distribuídos, a festa já marcada, havia um projeto de felicidade familiar em curso. Ela precisava acreditar que o vivido era passado e o sonho seria a realidade da vida familiar.

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Não foi. Cristiane não morreu, mas ainda pode vir a ser uma vítima de feminicídio. É uma exilada na própria casa, pois o ex-diplomata, homem de negócios e o príncipe da fantasia, está foragido. Como outros agressores, Sérgio a ameaçava de morte e a qualquer momento pode vir honrar o prometido. Desconheço as razões pessoais de Cristiane ter contado seu segredo em cadeia nacional, não mais como representando um papel, mas fazendo de sua vida o roteiro da tragédia. Eu imagino uma razão que me oferece admiração por ela: sua história de violência não será mais a de um sofrimento privado e escondido, mas compartilhado com todos nós que assistimos aos horrores da tortura doméstica. Ela não pode morrer; é agora a voz da fuga. Por isso, não será um número da estatística de feminicídio, mas uma história da sobrevivência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Transcrição A bióloga e advogada Bertha Lutz nasceu em 1894, filha da enfermeira Amy Fowler e do cientista Adolfo Lutz. Fez parte de seus estudos na Universidade de Sorbonne, em Paris e depois de formada atuou na área de botânica do Museu Nacional até 1964. Sempre participou em causas sociais envolvendo direitos das mulheres, sendo presidente da Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Em sua homenagem, todos os anos o Senado entrega o Diploma Berta Lutz a personalidades que se destacam na defesa de direitos das mulheres e das questões de gênero. Em 2003, na primeira edição do prêmio, a então senadora Emília Fernandes, do Rio Grande do Sul, ressaltou o pioneirismo de Bertha em diversas áreas. Emília Fernandes – A mulher cidadã Bertha Lutz, advogada e bióloga que se diplomou em tempo no qual a mulher não tinha outra opção além de tornar-se dona de casa e gerar numerosa prole. Foi uma mulher muito à frente de seu tempo, um tempo de nefasta opressão que, além de negar acesso às instâncias formais de poder, reprimia de maneira terrível todas aquelas mulheres que tentassem romper as barreiras impostas por uma sociedade marcada por valores machistas. Bertha Lutz fez parte do grupo conhecido como sufragistas brasileiras que teve como conquista o voto feminino no país em 1932. Foi a segunda mulher a ser deputada federal no Brasil em 1936. Bertha ainda fez parte da delegação brasileira em 1945 que participou da construção da Carta das Nações Unidas. Ela faleceu em 16 de setembro de 1976.

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