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China e a violência doméstica

Saiu no site DIÁRIO DE FRANCA: 

 

Veja publicação original: China e a violência doméstica

 

 

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A contadora chinesa, Lin Ziaoping, 30 anos, teve dois abortos prematuros devido aos maus tratos do marido. Apesar das manchas por todo o corpo, ninguém nas delegacias tomava conhecimento de suas queixas, aconselhando-a a buscar uma mediação dentro da própria família para melhorar a situação doméstica. Isto, até o dia em que ela foi quase enforcada pelo marido e encontrou uma juíza que aceitou dar início aos papéis de divórcio.

 

A sua história saiu no jornal holandês NRC Handelsblad, ao ilustrar a precária situação da mulher chinesa, que se depara com um muro de preconceitos e incompreensão quanto aos maus tratos de mulheres pelos próprios maridos. Em apenas um escritório de advocacia, estão cerca de 321 casos semelhantes de mulheres que querem se divorciar, por causa da violência mental e física em casa. Mas segundo as estatísticas oficiais, isto ainda é muito pouco, pois acredita-se que de cada 4 mulheres, uma sofre de violência doméstica.

 

As coisas começam a aparecer em público devido a uma lei adotada no país, mas ainda um tanto quanto desconhecida pela grande maioria dos chineses. Esta lei está ajudando as mulheres a vencer a barreira de preconceitos e estimulá-las a fazer um boletim de ocorrência da violência em suas casas. E, por incrível que pareça, apesar desta lei já ter sido assinada em 2002, muitos ainda a desconhecem e rejeitam aceitar quaisquer queixas dessas mulheres, principalmente nas grandes áreas rurais do país. E também muitas mulheres na China ainda não têm a coragem de dar este passo e comentar a sua própria situação com um estranho à família. Nas grandes cidades, agora, parece que a coisa começou a mudar devido à divulgação oficial de casos como este pela imprensa.

 

E na província de Hunan, com 80 mil habitantes, está acontecendo uma coisa inédita desde o início deste ano: agentes policiais e juízes estão sendo treinados a reconhecer quando as queixas das vítimas são sérias e devem ser oficialmente anotadas. E tudo isto numa cultura que ainda preserva os ditames deste provérbio da China antiga: “A destruição de dez templos é melhor do que a destruição de um casamento”.

 

A história desta emblemática contadora, Lin Xiaoping, que falávamos acima, não terminou com o divórcio. Após a separação, ela se mudou de cidade, arrumou um outro emprego, mas ainda foi perseguida pela família do marido que exigiu uma indenização pelo escândalo público causado pelo divórcio. Depois de tantas discussões e mediações de ambas as famílias, ela finalmente ficou livre após ter pago uma multa à família do marido de 9 mil euros.  Nem a nova lei que permitiu o divórcio conseguiu evitar esta absurda multa por danos morais ao causador de todos os problemas, o próprio marido.

 

Com estas pequenas vitórias, a mulher chinesa começa a sair da toca e a enfrentar a sociedade machista e ditatorial em que vive, onde seus direitos são aniquilados por quase toda a sociedade do país, que nunca viveu uma outra situação diferente desta. Quando a mulher começa a chegar perto dos 30 anos, a pressão da família para que ela se case é enorme.

 

Com Lin não aconteceu outra coisa. Depois de sua mãe ter aparecido com vários candidatos que foram rejeitados por ela, Lin decidiu escolher um através de uma agência matrimonial. Foi sua escolha, sob pressão é verdade, e não deu certo. Agora, ela quer esquecer tudo e recomeçar sua vida. E com isto, ela tornou-se um exemplo da nova mulher chinesa para toda uma camada de mulheres que ainda vivem em silêncio sob a tirania e violência de seus maridos.

 

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todos os sábados para o Diário da Franca.

 

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