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Vera Santos: Professora, administradora, servidora pública e, aos 62, quer ser atriz

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Depois de três faculdades, duas pós-graduações e dois concursos públicos, a aposentada voltou à faculdade para estudar teatro: “Me encontrei naquele ambiente tão livre de preconceitos, e de tanto amor.”

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Quando era criança, Vera Lúcia Santos ouviu a seguinte frase: “se queres ser alguém na vida, tens que estudar”. Ela levou a lição a sério e, aos 62 anos, está, ainda (ou de novo), na faculdade. Vera cursa Arte Dramática, com bacharelado em Interpretação Teatral, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É a sexta graduação que inicia, e será, ela garante, a quarta concluída.

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Funcionária aposentada do Tribunal Regional do Trabalho, ela finalmente encontrou tempo para dedicar-se às artes. Antes disso, formou-se em Letras, Administração de Empresas, Administração Pública, começou (mas não terminou) as faculdades de Educação Física e Direito, fez pós-graduação em administração e em língua inglesa, dois concursos públicos e ainda criou três filhos, sem nunca ter abdicado de dar aulas de inglês, coisa que faz até hoje.

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Quem ofereceu aquele conselho, décadas atrás, foi uma das irmãs de criação. Vera nasceu de uma mãe doente terminal – com câncer, sabia que morreria sem poder criar a filha. “Do meu pai verdadeiro, não sei nada, só o sobrenome”, diz. Assim, com um ano e meio de idade, a órfã foi entregue à parteira Gezilda, de quem herdou o sobrenome. Gezilda morreu quando Vera tinha oito anos. Com 11, ela perdeu o pai adotivo, Emílio. Morou com os irmãos adotivos em Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre, até os 18 anos, quando, já aluna de Letras na UFRGS, mudou-se para a casa do estudante, na capital.

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Nunca pedi para ganhar na Mega-Sena. Pedia a Deus para me recompensar pelo meu estudo.

CAROLINE BICOCCHI/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL

Vera levou a lição a sério e, aos 62 anos, está, ainda (ou de novo), na faculdade.

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Durante a faculdade, candidatou-se a um intercâmbio da igreja luterana e foi parar no Japão, onde viveu por um ano e meio em Tóquio. Três anos depois, voltaria ao país graças a um convênio de cooperação entre o estado do Rio Grande do Sul e a província japonesa de Shiga, para trabalhar por 10 meses na área de turismo (fluente em japonês, ela ainda voltou ao país outras duas vezes, a passeio). Entre as duas viagens, tentou um sonho antigo, de cursar Medicina. Não conseguiu, mas obteve nota boa o suficiente para entrar no curso de Educação Física. Trocou para Administração de Empresas, e lá, se encontrou, tanto que, em paralelo, graduou-se em Administração Pública.

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Engavetei três diplomas e fui morar em um sítio. Por três anos, tive uma vida totalmente rural.

CAROLINE BICOCCHI/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL

A nova paixão foi parte importante na nova fase da vida da servidora pública.

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Já casada, enquanto cursava Administração, Vera engravidou dos dois primeiros filhos, mas jamais interrompeu a faculdade. Já formada, quando o caçula tinha cerca de dois anos, resolveu que a vida na cidade com duas crianças na creche, pegando uma doença atrás da outra e consumindo boa parte do salário, não estava boa. “Engavetei três diplomas e fui morar em um sítio”. Vera e o marido se estabeleceram no interior do município de Glorinha, a 60 quilômetros de Porto Alegre, e lá viveram por três anos como professores da rede pública estadual.

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A carreira de professora foi curta: sete meses depois de ingressar no magistério, Vera fez outro concurso, desta vez, para técnico judiciário no TRT. “Estudei por três semanas, e fiquei em 51 lugar entre 4 mil candidatos”. Boa com números, ela lembra até quantas questões tinha a prova: 70.

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Em função da nova atividade da mãe, a família – agora com uma terceira filha – mudou-se para a cidade de Triunfo (a cerca de 80 quilômetros de Porto Alegre), onde viveram por 14 anos. Com o marido, que ainda lecionava no ensino público, Vera mantinha uma escola de idiomas, além das atividades no poder judiciário. Em 2004, voltaram para Porto Alegre.

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Pouco depois, a filha caçula engravidou, aos 16 anos, e a crise familiar motivada pela dificuldade do marido em aceitar a situação precipitou a separação dos jovens avós. Divorciada aos 52 anos, Vera fez uma cirurgia plástica e foi estudar teclado. Encantou-se pelos olhos verdes do professor, Henrique, que hoje é seu segundo marido. “Sou muito grata por ter casado e tido três filhos. Para mim sempre foi muito importante ter uma família, por causa do meu passado, e meu ex-marido me deu essa família”.

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Não tive e não vou ter síndrome do ninho vazio. Tua felicidade não pode estar baseada na presença constante de alguém.

CAROLINE BICOCCHI/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL

Já casada, enquanto cursava Administração, Vera engravidou dos dois primeiros filhos, mas jamais interrompeu a faculdade.

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O namoro com Henrique engrenou quando ela o convenceu a acompanhá-la ao violão na apresentação de uma música própria durante um festival de talentos do Tribunal – o nome da música é sugestivo: Outra Paixão. E a nova paixão foi parte importante na nova fase da vida da servidora pública. Ao lado de Henrique, Vera deu vazão à veia de compositora e tomou coragem para cantar. “Sempre fui reprimida na família, porque todos cantavam muito bem e diziam que eu era desafinada. Fui criada ouvindo que tinha voz de taquara rachada”.

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Óbvio que eu não curto tudo o que meus colegas curtem… mas eu não dou sermão, sou pelo livre arbítrio! Apenas saio mais cedo.

CAROLINE BICOCCHI/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL

“Quero criar mais espaços onde haja esse respeito, esse amor.”

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Em 2016, saudosa dos bancos escolares, ingressou no curso de Arte Dramática, rumo a seu quarto diploma. “Me encontrei naquele ambiente tão livre de preconceitos, e de tanto amor”, conta ela. O convívio com gente muito mais jovem, segundo Vera, é transparente. “Jamais me senti tratada como alguém mais velho. Claro que eu não curto tudo o que eles curtem – e nem vou citar o quê -, mas eu não dou sermão, sou pelo livre arbítrio. Vou no happy hour, nos encontros, e saio mais cedo”. Vera também não se priva de tomar parte em performances e atividades com os colegas nas ruas. “Estes dias, tivemos uma aula no parque e depois fomos almoçar no RU [restaurante universitário]. Estava caminhando com uma colega de 18 anos, e ela falou ‘ai, Verinha, como é bom dar um rolê contigo!”.

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Aquele ambiente me mostrou que um outro mundo é possível. Aqui fora é tanta homofobia, tanto racismo, tanta intolerância, e lá dentro eu sinto muito amor.

CAROLINE BICOCCHI/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL

Em 2016, saudosa dos bancos escolares, ingressou no curso de Arte Dramática, rumo a seu quarto diploma.

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A estudante também está realizando um velho sonho, de ter “uma portinha no Menino Deus”, bairro de Porto Alegre onde morou boa parte da vida. Adquiriu um imóvel onde montou, com Henrique, a Casa de Cultura Novos Tempos. Lá, ele dá aulas de música e ela, de idiomas, mas o espaço também recebe eventualmente a turma da faculdade, aulas de dança e teatro, e isso é só o começo. “Se tenho condições de oferecer algo para quem está começando, com a minha experiência e com o que pude adquirir ao longo da vida, farei isso. Quero criar mais espaços onde haja esse respeito, esse amor”, diz ela.

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Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

 

 

 

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