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Holandesa que denunciou João de Deus fala de trajetória: “Foi um choque ser abusada pela pessoa em quem confiei para me curar”

Saiu no site REVISTA MARIE CLAIRE

 

Veja publicação original:   Holandesa que denunciou João de Deus fala de trajetória: “Foi um choque ser abusada pela pessoa em quem confiei para me curar”

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Em depoimento à Marie Claire, a coreógrafa holandesa Zahira Lieneke Mous, primeira mulher a denunciar o médium João de Deus, fala de sua história com a dança, cura e de como sua vida ficou após romper o silêncio sobre os abusos que sofreu

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Por Zahira Lieneke Mous

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Meu nome é Zahira Lieneke Mous, tenho 34 anos e sou coreógrafa, escritora, produtora cultural e professora. Meu foco profissional e pessoal está nos estudos de cura por meio da dança. Meus trabalhos coreográficos falam sobre tabus sociais, sexualidade e feminilidade.

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Nasci e cresci numa pequena vila no interior da Holanda, no meio da floresta e perto de vários lagos. Tenho boas lembranças de subir em árvores no verão e patinar no gelo no inverno. Todos os dias, não importava o clima, eu pedalava até a escola. Adorava voltar para casa e brincar com o nosso cachorro e os outros animais que tínhamos. Amava minhas aulas de balé e gostava de tudo cor de rosa.

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Mesmo que a dança já fizesse parte de mim desde que tinha quatro anos, a possibilidade de ser coreógrafa era uma coisa que a vida estava me apresentando. Eu costumava coreografar minhas próprias danças para peças escolares e, durante meus estudos de graduação, fiz minha própria produção de dança teatral.

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Então eu me mudei para os Estados Unidos para fazer mestrado em dança. Nos últimos cinco anos, desenvolvi uma identidade própria expressada na coreografia, uma espécie de ‘assinatura’. Hoje, tenho minha própria companhia de dança chamada Project Zahira | Dance Theater. Nossa base é em Amsterdã, mas fazemos turnês internacionais. Já nos apresentamos na Holanda, Estados Unidos, Brasil, Índia e Grécia.

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Aos 25 anos, comecei a praticar o Budismo Nichiren e isto me ajudou a conectar-me com o meu poder interior e, pouco a pouco, comecei a fortalecer a autoestima. Aprendi mais sobre astrologia, sobre o mundo psíquico, o trabalho energético e os chacras, tudo isso aliado às meditações ativas por som e movimento.

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Quando ouvi falar da Casa Dom Inácio de Loyola e do trabalho feito por “João de Deus”, achei que devia ir até lá para aprofundar minha espiritualidade e me curar. Penso que, pela fé, muitas pessoas obtiveram cura, mas foi um choque ter sido abusada pela própria pessoa em quem confieiEu tinha 30 anos. Fui lá esperando uma cura de tudo que já vivi na minha vida, mas só piorou.

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Depois de sair da Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, senti nojo e desespero pelo que havia acontecido. Fiquei com medo das pessoas que trabalhavam na Casa, me senti completamente desprotegida e só queria que as más lembranças fossem embora. Além da vergonha e do medo, não achava que tivesse qualquer direito ou maneira de fazer algo judicialmente em relação ao abuso. Além disso, sabia muito bem que se falasse, a execração da vítima, o gaslighting, aconteceriam – exatamente como aconteceu.

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Em performance com o Ballet Bernasconi (Foto: Arquivo pessoal)

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Quando li Brave, da Rose McGowan, no ano passado, toda a raiva e dor emocional relacionadas ao abuso vieram à tona. Minha esposa começou a pesquisar na internet se havia mais alguém falando sobre ter sido abusada por João e encontrou um blog com outras pessoas contando suas histórias. Naquele momento, quando percebi que não era a única vítima, sabia que precisava falar publicamenteO trauma era como uma ferida aberta e senti que não tinha nada a perder. Minha raiva e a necessidade de justiça para todas as mulheres eram maiores do que o medo daquele homem-monstro.

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A cura do trauma do abuso sexual é uma montanha-russa de emoções. O que me ajudou foi contar minha história e, especificamente, contá-la em um ambiente seguro, ser vista e ouvida por pessoas em quem senti que podia confiar. À medida em que minha força vital cresce, tento ressignificar minha história e a de tantas mulheres que sofreram violências por meio de um processo criativo.

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Assim, dedico minha nova produção, Reclaiming the Goddess, às vítimas de abuso sexual. Quero levar meu trabalho ao Brasil e mostrar a importância de apoiar outras mulheres, como em uma irmandade sagrada.

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Eu senti uma grande libertação quando contei minha história ao Pedro Bial. Me senti ouvida, vista e apoiada. As pessoas de sua equipe são corajosas e eu sinto uma enorme gratidão por elas, especialmente Camila Appel e Pedro Bial. E também pela guia americana Amy Biank, que teve a coragem de contar suas experiências como testemunha dos abusos que aconteciam na Casa.

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Também fiz uma denúncia oficial às autoridades e me senti aliviada. Agora o processo está nas mãos da justiça, com pessoas em quem confio. Mulheres ajudando mulheres.

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Depois que o programa foi ao ar, em 7 de dezembro de 2018, meu Instagram transbordou com tantas belas mensagens de apoio. Também recebi centenas de mensagens privadas, dentre as quais as de muitas mulheres que foram abusadas por João, mas também de outras abusadas por membros de suas próprias famílias.

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Senti que abri um portal para o primeiro movimento #MeToo no Brasil. Antes disso, as mulheres brasileiras não se atreviam a falar porque, eu acho, se acostumaram a ser silenciadas e a ouvirem que estavam ‘imaginando coisas’. O cenário de silenciamento sistêmico é muito problemático.

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Quero dizer às mulheres que ainda estão caladas que confiem em alguém para compartilhar sua experiência. Libertem-se. E se você tem a coragem, denuncie também. Quebre o seu silêncio. Tome seu poder de volta. Nós somos muitas, você não está sozinha.Nunca desista e fortaleça suas amizades com as mulheres ao seu redor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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